O Conselho Federal da OAB realiza desde ontem, e até
hoje, sua sessão plenária do mês, sob a condução de seu presidente,
Ophir Cavalcante, com participação dos 81 conselheiros da entidade.
Conquanto a pauta estivesse cheia (há 35 propostas), um tema monopolizou os debates na manhã de ontem.
Com efeito, o batonnier da advocacia abriu os
trabalhos questionando o conselheiro Carlos Roberto Siqueira Castro,
representante do RJ, acerca de reportagem veiculada no site Conjur,
segundo o qual Siqueira Castro teria colocado "em dúvidas as finanças da
entidade" (sic).
Segundo o referido noticioso, o ilustre advogado
fluminense teria dito que : “Se o TCU fizesse um exame das contas da
diretoria do Conselho Federal, talvez essas contas não passassem sob o
crivo mais elementar da contabilidade pública”. E mais, que “não há,
efetivamente, transparência, não há aquela governabilidade que encanta
os olho (sic) dos democratas”.
Ophir, evitando fazer julgamentos de afogadilho, quis ouvir o advogado Siqueira Castro quanto à veracidade das informações.
Respondendo, o festejado causídico fluminense,
titular de uma das maiores bancas do país, confirmou as informações,
asseverando que os conselheiros não sabem “absolutamente nada do que se
passa na gestão financeira e orçamentária da OAB”.
Depois de longos minutos mantendo o discurso áspero, a
palavra voltou ao batonnier, que redarguiu também de modo duro.
Seguiram-se vários conselheiros, todos apoiando a diretoria da Ordem. Em
geral, os conselheiros mostraram que há ampla publicidade das contas,
até mesmo no site da OAB, e que os eventuais questionamentos do
Conselheiro deveriam ter sido externados em plenário, e não pela mídia.
O clima esquentou. Esquentou. Esquentou mais um pouco. E aos poucos foi se amainando.
Quase no final, quando a animosidade já estava
latente, o advogado Siqueira Castro honrou-nos, citando este nosso
despretensioso informativo.
Tal o fez, porque Migalhas, ontem, no fechamento da
edição, auscultou o começo da arenga e quis passar isso aos leitores.
Dissemos, ipsis litteris : “Siqueira Castro, representante do RJ,
começou a sessão de hoje com duro discurso pedindo transparência nas
contas da OAB. O batonnier da advocacia redarguiu, em acalorado debate. É
possível assistir ao vivo.”
Mas o que era para ser regozijo migalheiro, ser
citado, ainda mais por tão iluminado doutrinador pátrio, transformou-se
em taciturnidade.
É que S. Exa. leu nossa nota como se estivéssemos
deturpando o jogo. Disse que ninguém poderia controlar a imprensa (e
alguém quer ?). Criticou-nos por dizer que ele havia aberto a sessão,
quando o que se deu foi que o presidente da Ordem é que a abriu.
Sim, claro. Mas aí, com as devidas escusas, é coisa
que não fazemos : subestimar a inteligência migalheira. É claro que o
cerimonial não precisa ser descrito literalmente para que o leitor
entenda. O didatismo encontra seu limite na inteligência alheia. O
presidente da OAB abriu a sessão, como manda o figurino, e ato contínuo
passou a palavra ao advogado.
Afora isso, o culto conselheiro citou Galileu Galilei, que teve de renegar as ideias para não ir para a fogueira.
Ao ouvir estas afirmações, este informativo, cioso da
credibilidade que granjeou no meio jurídico, enviou imediatamente
e-mail ao advogado com o objetivo de esclarecer os fatos, até mesmo
porque, como já disse o Conselheiro Rui Barbosa, "no jornalismo a
brevidade inevitável das epígrafes atraiçoa, e desfigura, não raro, as
mais cândidas intenções".
Amável, como sói ocorrer, o advogado nos respondeu nos seguintes termos :
"Reitero que jamais tive a intenção de atacar ou
acusar a honorabilidade de quem quer que seja, notadamente membros da
nossa ilustrada e digna Diretoria do CFOAB, tampouco e, sobretudo, a do
douto e digno colega Dr. Miguel Cançado, Diretor Tesoureiro do CFOAB, a
quem muito respeito e estimo. Minhas críticas, tanto no evento do Rio de
Janeiro quanto hoje pela manhã na sede do CFOAB em Brasília foram e
serão sempre no plano estritamente institucional, ou seja para fins do
aperfeiçoamento dos procedimentos internos da OAB, isto de forma técnica
e sem qualquer interesse pessoal, político ou de outra ordem."
O fato é que no pano de fundo, estão as eleições nas
seccionais da OAB, em novembro. Aliás, o debate seguinte, que pelo
adiantar da hora não se prolongou, tratava justamente deste tema, diante
de uma recente pesquisa de intenções de voto feita por um instituto
pernambucano. Muitos Conselheiros Federais, preocupados com a guarda dos
dados dos advogados, que a eles, diga-se, é confiada por mandato
temporário, querem saber como a empresa teve acesso às informações dos
causídicos tupiniquins para conseguir realizar a consulta.
Enfim, são acomodações políticas que se dão, como um
encontro de icebergs nos oceanos da vida. Às vezes eles se juntam,
formando um só bloco. Às vezes, no entanto, apenas um segue pelos mares.
Mas acontece, também, de muitas vezes os dois, tendo se esbarrado,
seguirem, íntegros, cada qual seu rumo.
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