“Louvado seja
Nosso Senhor Jesus Cristo e toda a sua falange.”
Ao soprar o pó
de louro, eu abro caminhos. Quando cada partícula da folha alcança a brisa do
vento, ela limpa o que pesa, afasta o negativo e evoca a abundância. Trago
comigo esse ensinamento antigo, que fortalece meu espírito, clareia meus
pensamentos e guia meus passos e, portanto, passo adiante para quem um dia
possa precisar. A natureza sempre oferece a mão para quem recorre a ela.
Sabe, moço,
gosto de pensar que nenhuma folha cai da árvore sem que exista um motivo, sem
que o invisível permita. E toda a minha vida foi assim. Hoje, consigo
compreender que tudo teve uma razão e um porquê, dos momentos mais difíceis aos
mais felizes da minha vida, e acredito nisso porque sinto que sempre fui guiada
e protegida pelas forças da floresta, pelas energias dos meus caruanas e, entre
eles, um que ocupa um lugar especial no meu coração: o caruana Beija-Flor, a
força que reserva o cuidado a todos os que vêm destinados a ser pajé.
É verdade que
ele me acompanha desde meu nascimento, mas vai fazer quase trinta anos de uma
data que jamais saiu da minha cabeça. Ela mora no mais nobre espaço da minha
memória. Sob suas asas, o Beija-Flor me levou a conhecer o seu maravilhoso e
soberano ninho, que estava tão distante de mim no corpo, mas tão próximo no
espírito. Lá, diante das voltas perfeitas do Girador, ser criador, compreendi
os desígnios da lua, equilibrei os três reinos da terra – vegetal, animal e
mineral – e participei do renascimento de uma nação inteira. Mas o que eu ainda
não sabia, moço, é que naquele instante não era apenas uma comunidade que se
transformava. Era eu também. Dali em diante, todos compreenderam e vivenciaram
a abertura de um portal para um novo mundo: o mundo místico dos Caruanas,
morada dos seres encantados que me guiam, dançam ao meu redor e alimentam a
força que me mantém de pé, a coragem que me atravessa e a certeza que reafirmo
todos os dias com orgulho: eu sou Zeneida Lima, a última pajé do Marajó do povo
Sakaka.
É engraçado
lembrar, sabe, moço, que, quando eu era gitinha, me chamavam de Pajerama,
aquela que vem pra ser pajé. Eu não entendia muito bem o que isso queria dizer,
mas entendia que vim ao mundo de maneira singular. Muito antes de eu abrir os
olhos para a vida, meus ancestrais já trilhavam caminhos de luta, coragem e
protagonismo. Eu nasci de uma linhagem de gente que aprendeu a permanecer.
Pelo lado de
papai, corre em meu sangue a bravura de Maria Mineira Naê, a Agotime do clã de
Daomé, mulher de força imensa, cuja história de resistência atravessa o tempo e
ainda hoje me ensina a não baixar a cabeça diante da vida. Mas foi pela parte
materna que me ocorreu o saber profundo das ervas, dos rios, da floresta e dos
encantados. Meu avô, pajé conhecedor dos segredos da floresta, de um povo
originário da Ilha do Marajó, me deixou de herança o entendimento das coisas da
terra. Minha existência, portanto, se dá a partir dessa confluência de mundos,
onde a ancestralidade é presença viva que me guia e me sustenta.
Tem coisa que
a gente escolhe pra vida, mas tem coisa que a vida escolhe pra gente. Tem coisa
que é um encontro agendado pela ancestralidade. E, portanto, moço, tem alguma
maneira de fugir daquilo que já está traçado? Não tem.
Meu chamado
começou antes mesmo de eu chegar aqui. Meu choro ecoava ainda no ventre de
minha mãe, como se minha voz já conhecesse os mistérios que me aguardavam.
Borboletas azuis rondavam seu ventre como um prenúncio de que a natureza já me
esperava. Já enxames me cercavam como guardiões de um chamado impossível de
negar. Eu sou a continuidade de um saber antigo que vive, respira e se
manifesta através de mim. Entre o medo e o encantamento, fui sendo moldada
pelas águas que me escolheram, compreendendo, aos poucos, que minha existência
era ponte entre mundos. Assim, ainda menina, reconheci minha missão como parte
do caminho que me foi traçado.
Levada, como a
correnteza de um igarapé, nasci em Soure, no coração do Marajó, onde a água
conversa com a terra e o céu parece repousar sobre os rios. Demorou algumas
luas até que o ultimato se revelasse. Há chamados que não surgem de uma vez,
eles vêm chegando devagar, como a brisa que atravessa a mata e sussurra sem
ruído. Mas devagar também se chega, moço, e meu chamado chegou.
Um dia senti
meu corpo enfraquecer de repente. Uma ventania me atravessou por dentro, como
se o mundo espiritual tivesse decidido me tocar de uma só vez. O ar se tornou
pesado, o tempo pareceu suspenso e, então, mundiada, eu os vi: três seres de
pele azul incandescente surgiram diante de mim. Tinham forma humana, mas não
pertenciam a este mundo. Eles tinham cara de peixe, só vendo.
Quando recusei
o que me ofereciam, fui castigada e, por dezessete dias, desapareci. Ao
retornar, envolta de galhos e cipós, o que mais espantava a todos era o meu
corpo todo marcado. Mais pra frente fui entender que aquilo era a flecha de
Anhanga sobre mim. Anhanga é força antiga. É ele quem protege a natureza e pune
aqueles que desrespeitam seus mistérios. Ao mesmo tempo em que guarda, também
castiga. E o meu castigo tinha motivo: ainda não havia iniciado a missão que me
trouxe pra esse mundo. Eu ainda não estava assentada pajé. Anhanga me cobrou.
Me chamou pela dor para que eu compreendesse quem eu era.
Não podendo
fugir daquilo que já estava traçado, foi Mestre Mundico quem me ensinou os
fundamentos da pajelança. O mistério da encantaria só é passado de pajé para
pajé. Com ele, aprendi a traduzir o que a natureza fala, aprendi a escutar o
vento e a decifrar o silêncio da mata. Passei a interpretar o banzeiro, o balé
das marés e a influência da lua, entendi o segredo de todas as folhas e
compreendi o que a jandaia canta no alto da palmeira, bem como o que o sabiá
tem a dizer com seu gorjeio. Foi Mundico quem trouxe meus ancestrais indígenas
para ensinar os segredos da cura a partir das folhas e explicar toda a
abundância que a natureza tem, que muitas vezes passa despercebida pelo
entendimento do homem.
Nesta jornada,
que durou mais de um ano, recebi minhas cordas, elementos fundamentais para um
pajé, e conheci o mestre e contramestre delas, meu guardião, o Caruana Norato
Antônio, que se apresenta na forma de uma cobra. Mundico me entregou ainda meus
três maracás, instrumentos sagrados que conduzem o ritmo, abrem os caminhos do
transe e afastam as energias ruins. Com seu som, firmo a ligação entre o
terreno e o espiritual. Enfim, ao concluir meu aprendizado, cumpriu-se o
destino da pajerama: estava assentada pajé.
Se, por um
lado, ainda era menina, com apenas 12 anos, por outro tornava-me uma mulher
forte do Norte, forjada nas terras encantadas do Pará, onde o açaí alimenta o
corpo, o carimbó embala a alma e os rios ensinam a resistência de seu povo.
Assim, segui pronta para encarar a vida de peito aberto.
O que eu ainda
não sabia tão bem, moço, era o quanto pode ser pesada a realidade de uma mulher
com dons que ultrapassam o pequeno entendimento de muitos. Afirmo que é muito
mais fácil compreender a natureza e todos os seus mistérios. Passei por muita
coisa, moço, só Deus sabe. Só vendo.
Cheguei a ter
a casa rodeada por toda uma população que me perseguia e, como herdeiros da
Inquisição, me tomaram como bruxa. Mas não titubeei, não dei um passo para trás
e nem sucumbi. Não reneguei minha verdade e, pra ser sincera, nem os condeno,
nem guardo mágoa, nem rancor. Ocupar esse espaço é a melhor maneira de
responder a todos que me julgaram. Ódio é uma bagagem pesada demais para se
carregar. Gosto de uma frase que um grande amigo, que entende o jogo da vida,
me diz sempre: “fazer o bem é mais difícil que fazer o mal”.
Portanto, me
mantive de pé e de cabeça erguida. Amparada pelos meus caruanas e pela Mãe
Nazaré, que nunca soltou minha mão e nem há de soltar. Encontrei na fé a
coragem e o abrigo para seguir em frente e vencer. Olhe em volta, moço, a
natureza nos dá a poesia que é preciso pra viver e ver a beleza da vida, ainda
que em meio a contratempos e injustiças. Eu gosto de cantar pra agradecer a
vida, canto para afastar o mal e canto para não esmorecer.
Cantar também
é reza, é um jeito de me manter firme e, sendo firme, serei fortaleza para os
que precisam de mim. Serei forte para seguir criando o que vem na minha cabeça,
como as notas de um órgão que me inspiram a desenhar, compor, pintar, costurar,
escrever e cumprir todas as outras missões que tenho, sempre com dignidade e
força. Como se fosse tudo um filme, onde, no final, a caminhada toda valerá a
pena. Cantar me mantém viva, é a forma de jogar pro mundo todas as mensagens
que ainda tenho que dizer. Cantar é minha forma de conversar com Nazaré. E eu
sei que ela me ouve. Quando vejo o sorriso das minhas crianças no Marajó, eu
não tenho dúvida nenhuma.
Moço, eu sou
mãe de muitos, mas Nazinha é mãe de todos. Sei que ela, junto dos meus
caruanas, me ajuda a manter em pé o que hoje é o meu maior sonho realizado: o
Instituto Caruanas da Ilha do Marajó, o lugar onde reafirmo minha promessa de
criança: que nenhum outro gitinho da Ilha deveria conhecer abusos, explorações
ou falta de educação.
É nessa enorme
escola-floresta que eu semeio meus conhecimentos e partilho com minhas crianças
os saberes para construírem novas perspectivas de futuro. Quero que elas
cresçam sabendo que pertencem a um lugar sagrado e que pobreza nenhuma pode
determinar o seu espaço. Quero que elas tenham acesso à cultura, à educação e à
preservação da nossa memória e da nossa terra. Quero que conheçam e mantenham a
nossa cerâmica, que respeitem a grande mãe natureza e que tenham como lema: “se
Deus me deu, vou preservar”.
Quando vejo
meus pequenos uniformizados, alimentados, em sala de aula, lendo um livro e
compreendendo a importância da floresta, moço, eu entendo todas as perseguições
e injustiças. Eu entendo toda a minha missão e, não nego, faria tudo de novo.
Tudo.
Olha, vou ser
sincera, moço: “para muitos, eu não passo de um caso de paranormalidade. Talvez
assunto para psicólogos. Já eu, me vejo tão somente como uma pajé, alguém que
lutou e ainda luta para manter íntegra a sua fé e seus princípios, apesar de
todos os abalos violentos que a vida trouxe. Venci a inveja, a maledicência e o
julgamento, e tive meu saber reconhecido porque aprendi a navegar entre mundos
que muitos não compreendem. Venci porque permaneci”.
E vou permanecer pra sempre, porque, quando meu corpo virar memória, não se enganem, eu ainda estou aqui. Me procurem na maior árvore que encontrarem na minha escola. Estarei ali, fazendo sombra para minhas crianças e para todos aqueles que precisarem de abrigo. E, se ainda me cabe um recado para a posteridade, moço, quando o mundo insistir no desequilíbrio, acredite em mim: sopre o pó de louro. Ele é pai d’égua. Ele não costuma falhar.

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